“Nem com chuva, nem com sol, Lomba Alta é só farol”
Enquanto o Brasil vivia os anos 50, também conhecidos como Anos Dourados, o mundo todo vivia essa época de transições, a sociedade mudava o perfil empurrado pelo boom da prosperidade econômica pós segunda guerra mundial, havia muito otimismo e esperança por todo o globo terrestre, isso se refletia na moda, na música e na forma de vida em geral. No Brasil, não era diferente, na música surgiu a bossa nova, na política o presidente Jucelino Kubitschek prometia “50 anos em 5”, anunciando um progresso como nunca antes houve e de fato realizou grandes obras, entre elas a de transferir a capital do Brasil para Brasília, construindo esta do zero. Mas... numa cidadezinha no interior de Santa Catarina, a juventude do Barracão desconhecia os Anos Dourados, sua diversão maior eram os torneios de jogos de futebol entre as comunidades, como nos conta a dona Ivanilde Schaeffer Hinghaus, na entrevista realizada no último dia 03 de maio de 2021.
Isolados dos grandes centros, com poucos rádios e
com estradas precárias a diversão dos jovens do Barracão eram os torneios de
futebol. Os rapazes jogavam futebol e as moças ficavam encarregadas das
torcidas organizadas para os jogos. Dona Linde nos contou que os jogadores
vinham em cima de caminhões, parecidos com o que conhecemos hoje por “pau de
arara”, de várias comunidades do município, tais como: Lomba Alta, Águas Frias,
Catuíra. Era uma forma dos moços e moças se conhecerem, de formar amizades e de
passar o tempo. Sempre após os jogos havia as tardes dançantes. Era um Barracão
muito diferente dos dias de hoje.
Enquanto a copa do mundo acontecia no Brasil
em 1950 e o Maracanã se calava na derrota para o Uruguai por 1x0, o que agitava
a Picadas naqueles dias, era provavelmente uma disputa entre a seleção de casa,
Picadas e Lomba Alta, no campo do seu Carlos Hosrt, que segundo Dona Ivanilde,
assim como o Maracanã era imenso – o campo ficava localizado onde hoje se
encontra o galpão do seu Deni Horst. Os torneios quase sempre aconteciam aos
domingos e depois dos jogos eles iam para o clube dançar, comemorar a vitória
ou esquecer a derrota. Dona Ivanilde relembra em meio a risadas o refrão
musical usado pela torcida organizada de Picadas, as moças cantavam provocando
o time adversário: “Nem com chuva, nem com sol, Lomba Alta é só farol”. Nessa
copa, diferente do mundial, o campeão foi o time da casa.
A música das tardes dançantes, ficava por conta da banda famosa na época em toda a redondeza, “Jazz Familiar”, banda formada pelos irmãos mais velhos de Ivanilde: Bruno Schaeffer, na percussão; Arno Schaeffer, no trompete; Etvino Schaeffer (primo), no clarinete; e Edelberto Schaeffer e Edgar Schaeffer, no acordeon.
Banda Jazz Familiar
Ivanilde nasceu em Picadas, em 27 de setembro de 1940. Filha de Rodolfo Jacó Schaeffler e Frida
Amália Schaeffer, a caçula dos
nove filhos do casal - Edelberto, Arno, Bruno, Edgar, Wirto, Irma, Vanda e
Yolanda, descendentes de alemães e ingleses, viveu sua juventude em Picadas,
uma comunidade bem desenvolvida naquele tempo, com vários comércios como o
celeiro Walter Zimmer, a sapataria do Ruth Wesler, a latoaria de Alfredo Iahn,
onde se faziam canecas, chaleiras, bules, panelas... No localidade existia até
mesmo um hotel, do lado da Atafona do seu Teobaldo, ali próximo da igreja
luterana, além da venda do Goth Truppel, o comercio do seu Albert Propst - na
reta de Picadas, ali perto de onde hoje se localiza o Ginásio de Esportes - a
ferraria de seu pai Adolfo, que atendia a comunidade e todos os viajantes que
passavam pela estrada geral de Picadas.
Da infância ela relembra da fartura em sua casa.
Todos trabalhavam arduamente, mas a dispensa sempre estava cheia. Plantavam,
trocavam alimentos nas atafonas – o milho bruto pela farinha de milho já moída,
artefatos de couro por fumo – e cozinhavam seus alimentos nos fornos e fogões a
lenha. A dona Linde lembrou que não havia energia elétrica na época, que a
iluminação era toda por lampiões e lamparinas à querosene.
Seu pai tinha uma grande ferraria, para o padrão da
época, com cerca de 19 funcionários, que se dividiam entre os trabalhos na
ferraria e também na agricultura. Milho, cebola, batata, vacas, cavalos, eram
uma família prospera. A mãe, dona Frida, fazia comida para todos, filhos e
funcionários, que realizavam as refeições todos juntos em uma grande
mesa.
O pai buscava toda a matéria prima para a produção
de sua ferraria, como: ferro e chifres de gado para fazer os cabos de facões e
facas, em Florianópolis. Ele ia de carroça e geralmente demorava cerca de uma
semana para ir e vir. Ela conta que tudo era escolhido com muito esmero. Como a
ferraria ficava na rota dos tropeiros, estes também conhecidos como “lageanos”,
eram clientes certos de seu Adolfo. Que vendia para eles todo tipo de material
como facas, facões, foices, enxadas, ferragem das rodas de carroças, se faziam
ferraduras, etc, e as vezes como relembra sua filha, também trocavam
mercadorias por fumo, produto que não era muito comum no Barracão naquela época
e que atraia muitos compradores.
Carlos Horst, o dono do campo onde os jogos
aconteciam, fazia também as bainhas para os facões e a pequena Linde, com
aproximadamente 10 anos, já ajudava o pai, fazendo as florezinhas para
ornamentar as peças, ela lembrou que adorava fazer isso. Carlos era casado com
Dona Matilda, a parteira que trouxe ela e seus irmãos ao mundo.
A religião, como na maioria das famílias de
imigrantes que colonizaram o município, era muito importante na casa de sua
família, ela relembra que sempre ouviam o culto juntos e cantavam os hinos de
louvores, afinal de contas a música estava no sangue de sua família. Lembra
também, que às vezes à família se reunia nos finais de tarde para cantar
louvores tradicionais e músicas conhecidas.
De sua infância além das aulas com a professora
Maria Cecilia Westphal, na escola que ficava perto da igreja Luterana, onde
estudou até o terceiro ano, ela ainda relembra de lobo, um cachorro de seu
irmão Edelberto: em uma época sem telefone as pessoas precisavam criar seus
próprios meios de comunicação. Edelberto, também chamado de Eti, morava em cima
do morro próximo, com sua família – esposa e seus filhos. A família tinha um
cachorro branco, chamado Lobo e eles o treinaram para ajudar na comunicação.
Quando ele precisava de alguma coisa – algum remédio ou chá, alguma coisa do
tipo - escrevia um bilhete e colocava na coleira do cachorro, batia palma e o
mandava até a casa de sua mãe. A mãe lia o bilhete e colocava o pedido na
coleira do cachorro novamente, batia palma e ele voltava pra casa do filho.
Quando o cachorro chegava de volta em casa, Edelberto tocava o clarinete, para
a mãe saber que ele tinha recebido a encomenda.
Outro fato que ela relembra sobre a casa do irmão
mais velho era as frequentes visitas de brugues que ele recebia. Ela conta que
a casa era alta do chão e os índios entravam debaixo do assoalho e batiam com
pedaços de pau nas paredes, para assustar a família. Quem mais tinha medo dos
índios era a sua cunhada, que quando ia trabalhar na roça sempre levava o
cachorro junto, com o intuito de usar o cachorro bravo para se defender,
assustar ou pelo menos ter tempo de correr dos bugres, caso eles aparecessem.
Até mesmo os rádios não eram comuns naquela época,
poucas eram as casas que tinham. Ela relembra, entre sorrisos, as noites que ia
à casa do tio Calinho, para assistir a novela da Magnólia, o local era ponto de
encontro de toda a vizinhança, que tinha o mesmo propósito. Ela contou também
que gostava muito de ouvir as notícias, então ficava debruçada na janela de sua
casa com seu pai para ouvir, tal era a altura que o tio colocava o volume do
rádio na casa próxima. Na hora da novela, o tio gostava de zoar com as visitas,
dizendo que dentro do rádio estavam as pessoas que falavam e não foram poucas
as vezes que a pequena Ivanilde tentou ver elas dentro da caixa do rádio.
Ivanilde casou-se cedo, em 1955, aos 15 anos com
Artur Hinghaus com quem teve quatro filhos: Sueli, Alceu, Elenice e
Advaldo.
Em seus 80 anos Dona Ivanilde passou por algumas guerras
e revoluções. Ela relembra que em 1945, na época da Segunda Guerra Mundial,
quase toda a sua família falava só a língua alemã, ela até os cinco anos falava
apenas o idioma de seus antepassados. Ela relembra que a mãe e a avó nessa
época começaram a lhe ensinar o português, com medo das retaliações que ela
poderia enfrentar, sendo a mais comum entre os imigrantes dessa região: de ser
xaropeada com óleo. Além dessa lembrança ela também relembra que em tempos de
Guerras e Revoluções era comum que os homens se escondessem no mato para não
serem convocados para a luta armada. Hoje pode parecer estranho, os homens
fugirem e deixarem as mulheres em casa, a mercê de tropas de soldados que
estavam passando pela região, como por exemplo, as tropas que passavam por aqui
durante a revolução de 30. Aliás, se engana quem pensa que as fake News são
coisas apenas do século XXI, como relembra dona Ivanilde e a filha Sueli: O ano
era 1964, o Brasil estava entrando no Regime Militar e as notícias não corriam
tão rápido quanto hoje em dia. A população sabia que algo estava acontecendo no
Brasil, mas havia muita desinformação. Foi então que uma rádio de Lages passou
informações sobre o recrutamento de homens pelo exército brasileiro para lutar
nessa “revolução”, fato que realmente nunca ocorreu, mas foi o que bastou para
que homens e até mesmo adolescentes novamente se escondessem para fugir do
recrutamento.
O
marido de dona Ivanilde, Artur Hinghaus, foi um homem a frente do seu tempo,
sempre buscando por novidades. Assim que casaram começaram a plantar cebola,
mas logo depois abriram um comércio “a venda”, depois uma barbearia e uma
alfaiataria e não satisfeito ainda por volta do ano de 1963 fez um curso por
correspondência para aprender a construir rádios. Foi assim que nasceu a
Fábrica de Rádios TransKennedy. Todo o material para ele estudar vinha de São
Paulo pelo correio e ele estudou sozinho em casa, comprou todas as peças e
montou seu primeiro rádio. A esposa lembra com alegria o dia do primeiro teste:
Todos estavam ao redor da pequena caixa de madeira, será que aquilo iria mesmo
funcionar? Eram tantas peças, tantos estágios até aquilo ficar pronto! O rádio
funcionou e a alegria não poderia ser maior, pois logo em seu primeiro uso, já
se conectou a ondas curtas de uma estação da Alemanha. Todos comemoraram em
Alemão, pois entendiam bem a língua que estava sendo falada pelos jornalistas
alemães! A produção era realizada em parceria com Adelino Heck que fazia,
segundo dona Ivanilde, com muito capricho as caixas de madeira de imbuia, muito
bem envernizadas, que emolduravam as unidades de rádios montadas, e que já
tinham clientela garantida após prontas. Com a boa aceitação dos rádios, a produção
teve que ser aumentada, então o irmão de Dona Linde, Wirto Schaeffer, passou a
ir para São Paulo para buscar maior quantidade de peças, para fabricação de
novos rádios. A produção só diminuiu quando ele assumiu o cartório do Quebra
Dentes, não tinha mais tempo para os rádios, mas ainda devem existir alguns
exemplares desses rádios por ai!
Entre suas lembranças da comunidade, também existem
algumas que são tristes, como a morte da família Schuller. As mortes
aconteceram por conta de uma grande enchente ocorrida no ano de 1969. Uma
família inteira foi levada pelas águas violentas que desciam do Quebra Dentes.
O pai e o filho ficaram isolados na casa, subiram para o sótão, eles pediam
ajuda pela janela, mas ninguém conseguia socorrer. A violência da água acabou
levando toda a casa, com quem estava dentro dela.
A
sorridente dona Ivanilde encerra a entrevista dizendo que quer ver o material
pronto e afirmando que foi muito bom relembrar de tudo isso. Às vezes as
memorias ficam escondidas em nossas mentes, mas basta dar uma buscadinha e tudo
reaparece, trazendo alegrias de bons tempos vividos e lembranças de pessoas
amadas.
Camaro 74






















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